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Outro lapso cotidiano

  Escrevi um parágrafo sobre a demência. Não era uma tese de doutorado, não era uma dissertação, não era uma crítica construtiva e direcionada ao público de um único estabelecimento. Era um surto no contexto mais cru e cruel dessa síntese, um surto entre os dramas da vida adulta, um surto que gritava em milhares de vozes num crânio meio dilatado da normalidade. Sem querer, sem entender, sem sair de dentro do espelho do banheiro, sem desejar uma transformação. Era um surto movido por dissociações e a rejeição, o embaçamento de olhos e a surdez configurada pela sensibilidade que todas as visões ao mesmo tempo causavam nos glóbulos oculares. Nem todo burro vira indigente e nem todo doutor vira gente. São frases ecoando e ecoando, não existe a definição da crônica propriamente dita, não classificado, não como conto ou como qualquer coisa além dessa lacuna de significado. Não é vácuo. Não é só um simples surto, houve taquicardia, houve euforia, houve dor no corpo inteiro e a vontade de ...

A porta entre aberta

  Aquela mulher gritava para se fazer de vítima, existe um tipo singular de mãe e existe uma realidade que é guardada nessas lápides de lajotas e mármore. Os cemitérios tem respostas e segredos, aqueles túmulos contam fatos e levam retratos que se apagam com o calor e a chuva, são zonas no mundo de meditações e sabedoria silenciosa, muitas vezes é um grito que ensurdece no espírito. Dessa realidade levamos verdades e dilemas, pensar no outro lado era entre turbilhão de emoções e a placidez da finalização de alguma jornada, esse nome gera sempre uma metáfora que faísca no pensamento, encontrar a jornada faz parte da jornada, essa estrada é o começo da jornada, tem várias bifurcações e ainda assim existe a falácia pomposa que é tudo sobre a jornada.  Os anos voam. Escolher qual caminho e qual decisão tem um eco, a percepção que fica é de que alguém teve que inventar essa palavra para criar uma ilusão bonita que satisfaça a nossa angústia. Escrever sobre chaves e portas, escrever...

Letargia Provisória

  A lentidão das horas numa embriaguez  de pensamentos  Escrito na parede com letras verdes um verso qualquer  Odeio a simetria que correu das rimas e contou uma crônica: Era setembro e não chovia, estava observando a parede uma senhora, sem chorar ou rir, apenas olhando para o nada.  Encontrou aquelas frases e se perdeu dentro da mente, leu, releu, nunca mais esqueceu. "O primeiro pecador sofreu". "O segundo pecador morreu". "O terceiro pecador sou EU".

Delírio sem remédio

  As mensagens e as desculpas que não retratam horas e caminhos, não é um conto sobre a paixão envolvente que chega tão tarde, era carinho e delírio. Essa voz grave, essa voz rouca, essa voz que a imaginação criou para amarrar as lacunas, olhos cansados dessa mesmice que corrói a mente, não é um conto clichê sobre o primeiro amor. São impulsos e frases numa rede  virtual para afagar essa carência que transborda, impulsos de um cérebro exausto.  Era um novo delírio, virou um flerte e uma rejeição, não era sobre paixão ou sobre permanecer numa ilusão tão frágil, era uma boa escolha de palavras e o sentimento que nunca foi dito. Ele me rejeitou falando que se apaixonou e recebeu pequenas doses de lembranças dolorosas, sei que fui a algoz de vários sentimentos que mantive na caixa de cartas para esquecer de minha própria infelicidade.  Perdi as cartas, rasguei os papéis, cortei todas as pequenas formas de amor num delírio silencioso. Auto sabotagem é parte dessa jornada,...

Horror psicológico

  Tem gente fanática por horror, tem gente fanática por pensamentos enraizados e tem gente que mata gente para comer pedaços raros da carne humana. Não é um conto simples do canibalismo humano e das elites, poderia ser.  É sobre o canibalismo por baixo dessas camadas de revolta e soberania. Não gosto de preencher todo o quadro negro, o sangue escorre nas paredes, o sangue também é bebida rara dos vampiros antigos. Tem um conto nessa história, porém, não tem uma história sobre esse conto. Delineada no portão da memória ficou trancada essa crônica, pedaços humanos e porcos comendo a carne que foi cortadinha em pedaços, o ser humano é tão pequeno, existe um ego enorme nesse corpo pequeno, existe um sofrimento em cada filme de terror brasileiro, eu ia falar somente do horror psicológico. A lenda que fica ali no ar. Aquele fantasma veio assombrar o seu algoz? São camadas que geram mais camadas e medo numa frequência que não pode ser controlada, o pedaço do corpo humano mais caro é ...

Conto número 4

 Não é que o título faça sentido, mas, é a pista perfeita. Aquele pequeno sinal, primeiro o barulho na porta, os chamados e a presença. Ficou pesado o clima dentro da casa, a porta abriu e a janela simplesmente se fechou sozinha. Assustador! No outro lado do mundo o número quatro da azar, fala sobre a morte, é um grande sinal de problemas, aqui nos temos o número treze, a sexta-feira, essas simplórias ressonâncias com dizeres antigos. Ainda lembro do olho na parede, o breu daquela noite, estava completamente escuro no quarto e a TV começa a transmissão de um canal que só passava chuvisco e um som gutural difícil de escutar. Saí do quarto para desligar a TV, não estava ligada na tomada, senti o coração acelerar. A voz dentro do aparelho televisor ficou mais nítida, deu pra entender uma frase apenas. — Se você dormir eu vou te matar, vadia. Era uma voz masculina, o corpo todo ficou gelado, respirando muito rápido arrastei os pés para longe dali, próximo do banheiro surgiu o rosto hor...

Fios da Vida

  Não é um conto comum, é uma história ancestral. Os fios movem o Destino e aquela tapeçaria se constrói com as mãos das Tecelãs. Eram três as senhoras tecendo aquele grande emaranhado de fios, um tear feito do puro ouro, madeira rica e lustrosa, uns fios de prata se destacavam no grande cesto de fios. A primeira mulher observava as outras com extrema rigidez. — Nenhum fio pode acabar antes do tempo. As outras duas assentindo com zelo. Talvez a primeira fosse a mais antiga delas, se é que não eram todas do mesmo tempo. Esse limiar partia de limitações, certamente eram irmãs. A terceira gritou assustada. — Sumiu, sumiu, meu precioso fio sumiu! E a segunda zombou. — Tinha que ser teu descuido a nossa ruína. Ao que a primeira rangendo os dentes. — Não parem de tecer os fios, depois de terminar essa volta procuramos o teu fio, irmã, agora é hora de tecer. As três imersas num canto muito fantasmagórico seguiram no trabalho de suas vidas. Esqueceu-se completamente do fio a terceira irmã,...

O sagrado morto

  Tem uma história ancestral sobre os espíritos sagrados, evidências nas religiões de matrizes africanas, evidências no voodoo e em seitas na Ásia e Oriente Médio, está não é uma matéria jornalística. A religiosidade está repleta dessas certezas, os santos reverenciados e as suas milagrosas aparições. O teor é nítido, o sagrado e a morte andam lado a lado.  O que nós vamos encontrar do outro lado? Recordo que os ossos também falam, existe um oráculo divinatório de ossos na Kimbanda, muitos segmentos da mão esquerda e sistemas de magia "negra" possuem oráculos singulares. O ancestral permanece no centro dessa resolução misteriosa, os segredos vão se revelando nesse novo Mundo, anos atrás tudo era sigiloso e não deveria ser abertamente exposto, punições eram sussurradas, os sacerdotes eram vistos com temor. Um espírito me revelou que o respeito é importante, mas, a verdade também deve ser ouvida, eu poderia mencionar o nome dele, todavia que diferença isso faria numa sociedade ...

Doença psico-mental

  A arte de escrever sobre loucura e depressão, não vou dizer que domino essa classificação, não quero ser esnobe por vocação, não sei se tenho qualquer desejo de ser invejada por viver com a bateria social abaixo de zero, eu quero paz e dormir um pouco mais a cada dia. Hoje acordei pensando em sui.ci.de so.lu.tion, já é rotina pensar na melhor maneira de nunca mais existir, não vou falar que tudo é trauma e ferida emocional, grande parte é culpa sim do cérebro danificado, minha irmã diz que eu não tenho cara de autista, ela também diz que eu consigo olhar nos olhos normalmente, ela nunca viu os surtos que eu tinha no ensino fundamental em plena sala de aula com vários outros alunos num barulho infernal e aquela agonia que parecia nunca acabar.  Não viu todas as vezes que as crises pioravam porque eu tenho o senso de abafar num auto isolamento as paranóias, o turbilhão de sensações e essa certeza de que somente a solidão ameniza a dor física e mental. Não é surreal, é apenas u...

obsessão pseudo sobrenatural

  Não era uma vida fácil, não era nada como parece nesses filmes que Hollywood joga nas telas do resto do mundo subdesenvolvido.  A vida real é cheia de espinhos e quedas, nunca pensei que o relato das drogas seria após os 30, sequer cogitei que estaria respirando após os 27. Não quero manter no silêncio toda a vivência e experiência sobre a obsessão. Também não vou criar conceitos megalomaníacos de cientista louca, não sou formada nisso. Aquele dia a vontade de anestesiar o cérebro era o motivo, lembro de beber uma garrafa de vinho no banheiro, deitar no chão e olhar o forro daquele pequeno local, um espaço minúsculo, silêncio e isolamento auto imposto, não era um desejo de socializar e conhecer gente nova num bar qualquer, a primeira vez que enchi a cara a solidão foi minha companheira de copo. Quando fumei um cigarro pela primeira vez também estava sozinha, não houve um aliado para incentivar, peguei uma carteira esquecida na estante de livros da sala, provavelmente um prim...

sem amarras da normalidade

  Mania e insônia são duas coisas que geram caos. Essa é a rebelião do cérebro neuro diverso, o requinte de caos e a falta de energia, todos os lapsos dissociativos num contexto singular. Penso sobre a IA e a criatividade humana, penso nas lacunas e insisto em não pensar na dor de cabeça que me gera insônia. Ainda não recebi a informação do título, os fantasmas gostam de transformar essas conexões em lições, eu gosto de dormir. Temos uma luta sem vencedor, apatia e dores no receptor, sei que não recebo as mensagens quando não quero escutar, mas, é torturante permanecer numa mesma sintonia com os mortos e os inumanos. Não sei muito sobre o futuro e nem quero voltar ao passado, não quero sair do útero e crescer nesse mundo terrível. Acredito que a vida é por si mesma uma maldição que gera transformação. Sempre ecoa no cérebro aquele som devastador, deveria ser somente um único pesadelo breve, odeio saber que os anos passam e a mesma história se repete nesse ciclo assustador, deveria ...

O eixo da Questão

 A contra cultura é como a maresia ao reverso. Casais e suas pequenas falhas cotidianas, mentiras e segredos sujos. Aqueles olhares e sorrisos que escondem a feiura do desejo.  Virgínia sempre esperava que o perfil de Marcos surgisse na tela do seu celular, já o galã nunca sentiria a mesma ansiedade pela moça. Ele era muito bem casado, só precisava sair da rotina. Excluir era a resposta. Bloquear. Esquecer. Marcos só desejava uns minutinhos de aventura num motel barato e a menina, ingênua, doce e carente desejava que ele viesse com flores e um pedido sincero de namoro. Ela sabia que ele era casado, ela se enganava acreditando no amor que de fato nunca iria surgir, Virgínia não merecia viver essa história de ilusões e delírios. Marcos fingia que ela era muito melhor do que a esposa corna, mas, era tudo um teatrinho que ele criava para satisfazer seus caprichos. Gozar sem receios da jovem amante e manter a esposa do romance perfeito. Quando a pobre Virgínia teria o sonho de ser ...

Sobre a Prosa

 É um desejo e um sonho antigo. Sempre o mesmo pensamento e a mesma vontade, aquele desejo que parecia tão distante. Olho para o passado, um filme passa na tela mental, é meio doloroso, mas, aprendi várias lições. Encontrei fantasmas e encontrei grandes amigos, encontrei o meu próprio espírito que havia se fragmentado e espalhava os cacos por universos diversos. Queria encontrar a minha própria Voz no meio dos ecos, é extremamente difícil sobreviver aos pensamentos de ser uma sombra observando no mundo dos mortos. Lá fora chove e esse barulho da chuva me acalma, o cheiro da chuva e o sabor do som das gotas caindo na Terra, quero explicar o poder da tempestade para um cérebro barulhento. É sobre a Prosa, eu sonho com esse livro de capa dura e letras douradas, não uma capa vermelha extravagante, talvez um tom mais voltado para o barro ancestral, talvez um verde escuro musgo, eu penso na capa sem figuras, atualmente o que chama atenção não me dá tesão, eu cresci cheirando e tocando em...

Crônica sem título

  Não tem uma conclusão. Nunca teve sequer um sentido, lembranças que se borram numa lente imprecisa, é devastador observar as fotos e os amores que murcharam no jardim que eu não queria regar, aceito essa culpa, porém, não posso aceitar que nenhuma raíz conseguiu se manter viva num daqueles vasos. Eram prisões mentais e desejos de uma moça perdida. Camille escrevia tantos poemas que não deveria ter apagado, aquele espaço era sagrado, mórbido, mas, ainda assim tremendamente sagrado. O primeiro amor é tão frágil, lembro do telefonema, do selinho breve e do sorriso dela, até hoje consigo sentir a mesma emoção, não tive sorte no amor, mas, amei com fervor. Gostar de mulheres numa família conservadora é doloroso, tudo gera ansiedade, a porta do armário nunca parece fechada totalmente, tem as frestas que mostram muito mais do que deveriam mostrar. Não sei se era amor ou uma paixão da juventude, nunca sei definir o limite entre paixão e amor, sinceramente, penso que poderia ser uma obses...

Crônica do Pré-sentir

  Fico sonhando com Otis, estou plenamente acordada e escuto a voz dele, sinto os olhos próximos da minha cara, a respiração roçando na bochecha. Quando acordo desse transe vejo apenas o vazio, nenhuma presença concreta. A voz é tão real, ele disse que sentia falta de um dia que parece apenas um devaneio, lembro da música e de uma banda conhecida tocando num palco extremamente pequeno, lembro das luzes e das bebidas próximo da piscina, as conversas, as pessoas, uma festa que eu fui para dispersar o tédio da vida. Jovens sempre sentem tanto tédio de tudo, é trágico. Otis no outro lado da piscina sorrindo, a música mesclando sensações e desejos. Sempre me sentia perdida no meio da multidão, cansada dos rostos, da fumaça de cigarro e do cheiro doce do perfume de alguma estranha que me conhecia sabe lá de onde. Ele permanecia distante demais e perto, aquele olhar penetrando o corpo e sondando detalhes que não eram visíveis para outros indivíduos. Os artistas tem sexto e sétimo sentido,...

Death = DEF

  Caro   D.E.F (Distinto Estranho Familiar) Para V   Quando nos conhecemos, você consegue recordar?  Era noite, ou era uma fria madrugada, não sei se era dia, poderia ser numa tarde de sexta-feira. Você era bem peculiar, e era esquisita a nossa forma de conversar. Será que você consegue se lembrar? A minha memória já se apagou completamente, caro amigo. Não tenho nenhum registro, não guardei nenhum fragmento destas belas e alucinantes memórias. Certamente foram episódios divertidos e recheados de confusão mental, risadas e palavras desnecessárias. Agora, neste instante, você consegue voltar no tempo e visualizar tudo nitidamente como aconteceu, querido amigo distintamente estranho ao ponto de ser certamente familiar? Escrevi faz longos anos, era 2016, nunca mais tive notícias, DEF... ele me ensinou coisas nos olhares e risadas, lembro da voz, artista e músico excelente, esquisito demais, inteligente demais, interessante demais, o carinho tão evidente, a loucura ...

Susto e Agonia

  Penso nos monstros e seus rostos. A família que finge ser perfeita, pais ausentes, crianças abandonadas na rua, mortes que não geram notícias no jornal. O ser humano-Deus-imperfeito, o caos de cada dia, é sobre um susto e o que reverbera nos anos de agonia. Todos os livros que não consegui escrever, todos os traumas camuflados nos cantos da casa, a dor ali esperando, a raiva de uma infância que poderia ser menos triste. Nenhum pai esperando ao final da tarde, nenhum consolo no abraço de um fantasma. Só as migalhas de afeto numa vida escondida debaixo da cama, só uma ilusão do que deveria ser e nunca foi. É inútil desejar voltar no tempo todas as noites. O sentimento de não pertencer e não ser gente, ser só um cabide no fundo de alguma gaveta, enferrujando ali entre as traças. Não querer nada além do que um breve abraço materno. A criança parando de sentir, um adorno numa estante que nunca deveria ter nascido gente.

Maio da cor laranja

  Preciso dizer que eu criei esse blog, e escolhi o nome  OUTRA ALUCINAÇÃO  para manter as visões no registro da memória virtual, a mente humana distorce as lembranças. Os anos são como borrões e até as melhores coisas da vida vão se perdendo no emaranhado de sinapses neurais adoecidas. Sinceramente não lembro de várias coisas do passado, esqueço com frequência de memórias recentes, esqueço datas, senhas, às vezes esqueço o que eu ia fazer na cozinha, já pensei que poderia ser demência precoce. Quando era jovem e ingênua pensei que nessa faixa de trinta e muitos eu seria alguém no cenário da Literatura, não tinha a ousadia de me sentir celebridade, admito que me rotulei desde o início de sub-celebridade invisível, a mente humana cria as suas próprias prisões. Ser uma pessoa invisível por decisão é certamente uma ferida do psicológico, os transtornos vão se multiplicando na balança, as crises, as tristezas diárias. Quando escrevo sobre a visão em preto e branco não é somen...

A vida em Si

 "Acho que a vida em Si não tem coisas." Laura Zigut Provavelmente a vida tenha muitas coisas e entre essas coisas ela não tenha nada além de Si, não adianta refutar ou reduzir. Essa vida é composta de dilemas, pessoas que falam sobre a esperança, pessoas que criam novas guerras e não pensam em ninguém além de Si mesmas, claro que existem os fraternos. Tem quem ame e assuma os riscos, e tem quem morre nas incertezas, tem coisas demais na vida e nenhuma explicação concreta para a razão de viver, é só teoria e caos numa ladeira enorme. A vida em Si não gera respostas. Numa escada com degraus de fino vidro, aquele personagem de um mangá se feriu para salvar a palavra amor próprio. Azarado. Um coitado. Ainda vejo as pequenas frases sobre esperança e amor, essa vida não costuma dar segundas chances, talvez, deveria. Acho que a vida consome os dias. Escolhendo de forma aleatória quem deve sofrer e quem deve sorrir ao final do dia, poderia ser um jogo de balas e nenhum confete.

Os Fantasmas & a Paranóia

  Lembro de pequenos vultos enquanto eu caminhava da minha casa ao centro comunitário no Sítio Triunfo, lembro do chão coberto de folhas secas e muitas folhas amarelas, lembro de ir observando as cores e os meus passos, correr, parar, andar devagar e escutar todos os sons naquele caminho, ouvir a voz de uma criança atrás de mim, olhar e não ver ninguém ali, algo soprava no meu ouvido direito, novamente olho para trás sem ver nada, a chegada no cajueiro e olhar a praia, o sabor do vento perto do rio é muito diferente e agradável. Lembro de ouvir aquele sussurro de lugar nenhum, voz calma e levemente maliciosa. — Aqui era um cemitério indígena, você sabia? Ninguém, só o barulho daquela voz. A curiosidade me fez perguntar.  — Muitos deles morreram aqui? – e recebi uma resposta inesperada: — Uma tribo completa foi dizimada aqui. Eu também morri aqui, estava aguardando você chegar. Pela voz parecia um curumim, vi a silhueta próxima do cajueiro, um criança, um espírito ali buscando ...