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Crônica do Pré-sentir

 Fico sonhando com Otis, estou plenamente acordada e escuto a voz dele, sinto os olhos próximos da minha cara, a respiração roçando na bochecha. Quando acordo desse transe vejo apenas o vazio, nenhuma presença concreta.

A voz é tão real, ele disse que sentia falta de um dia que parece apenas um devaneio, lembro da música e de uma banda conhecida tocando num palco extremamente pequeno, lembro das luzes e das bebidas próximo da piscina, as conversas, as pessoas, uma festa que eu fui para dispersar o tédio da vida. Jovens sempre sentem tanto tédio de tudo, é trágico.

Otis no outro lado da piscina sorrindo, a música mesclando sensações e desejos. Sempre me sentia perdida no meio da multidão, cansada dos rostos, da fumaça de cigarro e do cheiro doce do perfume de alguma estranha que me conhecia sabe lá de onde. Ele permanecia distante demais e perto, aquele olhar penetrando o corpo e sondando detalhes que não eram visíveis para outros indivíduos.

Os artistas tem sexto e sétimo sentido, talvez até mais do que o olho comum consegue enxergar. Ser muito introvertida nessa fase me colocou em lugares que eu não deveria ter permanecido, sinto que deveria ir até ele e puxar qualquer assunto, um papo sem sentido, só um breve diálogo, qualquer coisa servia.

— E ai, cara, qual a boa? - esperando qualquer cumprimento, mas, eu nunca fui de tomar iniciativa em conversas assim.

Sonhar acordada com um amigo que eu nunca tive é bizarro, mas, poderia ter sido totalmente diferente se eu tivesse coragem de atravessar aquele espaço que estava orbitando entre nós. Otis mudou pouco ao longo dos anos, eu não sei se mudei ou permaneci num congelador, as vezes parece que o tempo sequer passou, todavia o calendário diz que vamos para o ano de 2027, calendários e suas datas sem sentido. Voltar ao passado não teria qualquer finalidade, Otis nunca falou comigo nesses anos, não éramos amigos, não éramos sequer colegas, e ainda assim os olhos dele me fazem sentir que o conheço de outras vidas.

Atualmente tivemos breves diálogos e foi um avanço enorme, socializar é exaustivo, mas, se eu hiperfocar na pessoa fico criando milhares de roteiros, isso tudo piora a sensação de ser uma fraude social. Otis poderia ser um amigo que eu mantive nos silêncios e nos pensamentos telepáticos, imagino que ele vai dizer:

— Cola aí, bora conversar.

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