Pular para o conteúdo principal

Susto e Agonia

 Penso nos monstros e seus rostos.

A família que finge ser perfeita, pais ausentes, crianças abandonadas na rua, mortes que não geram notícias no jornal. O ser humano-Deus-imperfeito, o caos de cada dia, é sobre um susto e o que reverbera nos anos de agonia.

Todos os livros que não consegui escrever, todos os traumas camuflados nos cantos da casa, a dor ali esperando, a raiva de uma infância que poderia ser menos triste. Nenhum pai esperando ao final da tarde, nenhum consolo no abraço de um fantasma. Só as migalhas de afeto numa vida escondida debaixo da cama, só uma ilusão do que deveria ser e nunca foi.

É inútil desejar voltar no tempo todas as noites.

O sentimento de não pertencer e não ser gente, ser só um cabide no fundo de alguma gaveta, enferrujando ali entre as traças. Não querer nada além do que um breve abraço materno.

A criança parando de sentir, um adorno numa estante que nunca deveria ter nascido gente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A saudade azul e cinza

Sempre te dediquei poemas azuis e meu amor cinzento que se desbotava, enquanto, febril e louca me iludia numa obsessão silenciosa, o nosso amor morreu.  Viramos grandes amigas e tua companhia era o meu mar de felicidade por anos de juventude e experiências amalucadas, a melhor companhia numa viagem pela estrada e a melhor amizade que o céu e a terra já me proporcionou. Confesso que chorei por vários meses, também me senti muito culpada e tola. Sinceramente eu sofri em silêncio e sentindo que merecia mesmo o frio e a distância, sentindo essa saudade azul e cinza. No silêncio guardei as minhas dores e paranóias, no silêncio escondi toda a tristeza da falta e dos fragmentos de lembranças, no silêncio eu continuo desejando não perder a amiga querida que eu tanto amei com todos os tons de azul. A minha alma sente essa saudade azul e cinza todos os dias e todas as noites, essa sensação de perder uma parte importante do Coração e viver num corpo meio desconfortável e desconectado do mundo...

Aspas sem reticências

P rocurando por fantasias na manhã de um fim de ano aparentemente insólito, a distorcida cor da alegria vai se transformando em minúsculas gotas de violeta que se espalham na folha de um papel tracejado nas arestas, na base e no final - pela tinta nanquim oriental. Quando o soprar de uma rajada de vento faz as folhas do livro da vida caírem no solo lamacento da terra ancestral, brotam do chão as pequenas raízes esverdeadas. Crescem ligeiras as plantinhas delicadas e expõem a flor ao clima tropical. A fragilidade é exposta em sua profundidade banal na brancura plácida de um crisântemo perfumado com lavanda e jasmim. Flores no jardim de algum poeta sem amor - são flores que acalentam a tristeza do solitário poeta que ora por: Vinho e poesia; versos e chuva; amor e alegria; serenidade e magia. O poeta dança quando chove, ri quando todos falam da morte e esquece-se das oras olhando para as cores do Universo. Aspas que se mesclam aos raios do sol, aspas sem reticências ...

Fantasma

 Pensei num conto, não um clichê das anedotas mais comuns. O que pensei tinha uma coesão e o personagem bem pautado, era uma história com base fictícia, e tons da realidade. O ser que sempre aparecia no telhado após o relógio marcar 23h45 e no auge da madrugada ele ficava ao lado da cama. Experiência angustiante de várias lembranças, aquele homem invisível tentando me enforcar, a sensação vivida das mãos apertando o meu pescoço e ninguém ali. Eu escutava o seu grosseiro linguajar, tremendo, todas as suas palavras de escárnio e perversa intenção, um assassino vulgar. No início não rezei, não falei sequer um "ah", apenas fiquei olhando pro vazio e tentando compreender aquela situação tenebrosa. Após os meses e os anos, não cheguei a rezar, mas, pedi intercessão divina, gesticulando que não merecia aquele visitante. As vezes ele ia embora mais cedo, outras vezes ficava rindo e insinuando que eu era uma criatura desprovida de sorte. Até que simplesmente me acostumei e passei a te...