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Susto e Agonia

 Penso nos monstros e seus rostos.

A família que finge ser perfeita, pais ausentes, crianças abandonadas na rua, mortes que não geram notícias no jornal. O ser humano-Deus-imperfeito, o caos de cada dia, é sobre um susto e o que reverbera nos anos de agonia.

Todos os livros que não consegui escrever, todos os traumas camuflados nos cantos da casa, a dor ali esperando, a raiva de uma infância que poderia ser menos triste. Nenhum pai esperando ao final da tarde, nenhum consolo no abraço de um fantasma. Só as migalhas de afeto numa vida escondida debaixo da cama, só uma ilusão do que deveria ser e nunca foi.

É inútil desejar voltar no tempo todas as noites.

O sentimento de não pertencer e não ser gente, ser só um cabide no fundo de alguma gaveta, enferrujando ali entre as traças. Não querer nada além do que um breve abraço materno.

A criança parando de sentir, um adorno numa estante que nunca deveria ter nascido gente.

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