Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de maio, 2026

Sobre a Prosa

 É um desejo e um sonho antigo. Sempre o mesmo pensamento e a mesma vontade, aquele desejo que parecia tão distante. Olho para o passado, um filme passa na tela mental, é meio doloroso, mas, aprendi várias lições. Encontrei fantasmas e encontrei grandes amigos, encontrei o meu próprio espírito que havia se fragmentado e espalhava os cacos por universos diversos. Queria encontrar a minha própria Voz no meio dos ecos, é extremamente difícil sobreviver aos pensamentos de ser uma sombra observando no mundo dos mortos. Lá fora chove e esse barulho da chuva me acalma, o cheiro da chuva e o sabor do som das gotas caindo na Terra, quero explicar o poder da tempestade para um cérebro barulhento. É sobre a Prosa, eu sonho com esse livro de capa dura e letras douradas, não uma capa vermelha extravagante, talvez um tom mais voltado para o barro ancestral, talvez um verde escuro musgo, eu penso na capa sem figuras, atualmente o que chama atenção não me dá tesão, eu cresci cheirando e tocando em...

Crônica sem título

  Não tem uma conclusão. Nunca teve sequer um sentido, lembranças que se borram numa lente imprecisa, é devastador observar as fotos e os amores que murcharam no jardim que eu não queria regar, aceito essa culpa, porém, não posso aceitar que nenhuma raíz conseguiu se manter viva num daqueles vasos. Eram prisões mentais e desejos de uma moça perdida. Camille escrevia tantos poemas que não deveria ter apagado, aquele espaço era sagrado, mórbido, mas, ainda assim tremendamente sagrado. O primeiro amor é tão frágil, lembro do telefonema, do selinho breve e do sorriso dela, até hoje consigo sentir a mesma emoção, não tive sorte no amor, mas, amei com fervor. Gostar de mulheres numa família conservadora é doloroso, tudo gera ansiedade, a porta do armário nunca parece fechada totalmente, tem as frestas que mostram muito mais do que deveriam mostrar. Não sei se era amor ou uma paixão da juventude, nunca sei definir o limite entre paixão e amor, sinceramente, penso que poderia ser uma obses...

Crônica do Pré-sentir

  Fico sonhando com Otis, estou plenamente acordada e escuto a voz dele, sinto os olhos próximos da minha cara, a respiração roçando na bochecha. Quando acordo desse transe vejo apenas o vazio, nenhuma presença concreta. A voz é tão real, ele disse que sentia falta de um dia que parece apenas um devaneio, lembro da música e de uma banda conhecida tocando num palco extremamente pequeno, lembro das luzes e das bebidas próximo da piscina, as conversas, as pessoas, uma festa que eu fui para dispersar o tédio da vida. Jovens sempre sentem tanto tédio de tudo, é trágico. Otis no outro lado da piscina sorrindo, a música mesclando sensações e desejos. Sempre me sentia perdida no meio da multidão, cansada dos rostos, da fumaça de cigarro e do cheiro doce do perfume de alguma estranha que me conhecia sabe lá de onde. Ele permanecia distante demais e perto, aquele olhar penetrando o corpo e sondando detalhes que não eram visíveis para outros indivíduos. Os artistas tem sexto e sétimo sentido,...

Death = DEF

  Caro   D.E.F (Distinto Estranho Familiar) Para V   Quando nos conhecemos, você consegue recordar?  Era noite, ou era uma fria madrugada, não sei se era dia, poderia ser numa tarde de sexta-feira. Você era bem peculiar, e era esquisita a nossa forma de conversar. Será que você consegue se lembrar? A minha memória já se apagou completamente, caro amigo. Não tenho nenhum registro, não guardei nenhum fragmento destas belas e alucinantes memórias. Certamente foram episódios divertidos e recheados de confusão mental, risadas e palavras desnecessárias. Agora, neste instante, você consegue voltar no tempo e visualizar tudo nitidamente como aconteceu, querido amigo distintamente estranho ao ponto de ser certamente familiar? Escrevi faz longos anos, era 2016, nunca mais tive notícias, DEF... ele me ensinou coisas nos olhares e risadas, lembro da voz, artista e músico excelente, esquisito demais, inteligente demais, interessante demais, o carinho tão evidente, a loucura ...

Susto e Agonia

  Penso nos monstros e seus rostos. A família que finge ser perfeita, pais ausentes, crianças abandonadas na rua, mortes que não geram notícias no jornal. O ser humano-Deus-imperfeito, o caos de cada dia, é sobre um susto e o que reverbera nos anos de agonia. Todos os livros que não consegui escrever, todos os traumas camuflados nos cantos da casa, a dor ali esperando, a raiva de uma infância que poderia ser menos triste. Nenhum pai esperando ao final da tarde, nenhum consolo no abraço de um fantasma. Só as migalhas de afeto numa vida escondida debaixo da cama, só uma ilusão do que deveria ser e nunca foi. É inútil desejar voltar no tempo todas as noites. O sentimento de não pertencer e não ser gente, ser só um cabide no fundo de alguma gaveta, enferrujando ali entre as traças. Não querer nada além do que um breve abraço materno. A criança parando de sentir, um adorno numa estante que nunca deveria ter nascido gente.

Maio da cor laranja

  Preciso dizer que eu criei esse blog, e escolhi o nome  OUTRA ALUCINAÇÃO  para manter as visões no registro da memória virtual, a mente humana distorce as lembranças. Os anos são como borrões e até as melhores coisas da vida vão se perdendo no emaranhado de sinapses neurais adoecidas. Sinceramente não lembro de várias coisas do passado, esqueço com frequência de memórias recentes, esqueço datas, senhas, às vezes esqueço o que eu ia fazer na cozinha, já pensei que poderia ser demência precoce. Quando era jovem e ingênua pensei que nessa faixa de trinta e muitos eu seria alguém no cenário da Literatura, não tinha a ousadia de me sentir celebridade, admito que me rotulei desde o início de sub-celebridade invisível, a mente humana cria as suas próprias prisões. Ser uma pessoa invisível por decisão é certamente uma ferida do psicológico, os transtornos vão se multiplicando na balança, as crises, as tristezas diárias. Quando escrevo sobre a visão em preto e branco não é somen...