Não era uma vida fácil, não era nada como parece nesses filmes que Hollywood joga nas telas do resto do mundo subdesenvolvido.
A vida real é cheia de espinhos e quedas, nunca pensei que o relato das drogas seria após os 30, sequer cogitei que estaria respirando após os 27. Não quero manter no silêncio toda a vivência e experiência sobre a obsessão. Também não vou criar conceitos megalomaníacos de cientista louca, não sou formada nisso.
Aquele dia a vontade de anestesiar o cérebro era o motivo, lembro de beber uma garrafa de vinho no banheiro, deitar no chão e olhar o forro daquele pequeno local, um espaço minúsculo, silêncio e isolamento auto imposto, não era um desejo de socializar e conhecer gente nova num bar qualquer, a primeira vez que enchi a cara a solidão foi minha companheira de copo.
Quando fumei um cigarro pela primeira vez também estava sozinha, não houve um aliado para incentivar, peguei uma carteira esquecida na estante de livros da sala, provavelmente um primo deixou ela ali sem querer, consigo lembrar que eu tinha 14 anos, fui pro quintal com o cigarro entre os dedos e o esqueiro no bolso, ninguém na casa, um silêncio acolhedor e o primeiro trago rasgando tudo, garganta ardendo, olhos lacrimejando, ainda assim, aquilo era a minha aventura entre a depressão e a melancolia da existência singular.
Lembro das vezes que meu irmão jogava no ventilador que os meus amigos estavam me levando para um caminho ruim, não ousava dizer que eu era a minha própria inimiga, em silêncio ouvindo os sermões e as ameaças sempre dissociava me falando mentalmente:
"Melhor que ele pense que sou mesmo só levada pela correnteza das loucuras alheias, vai ser triste perceber que eu só estou tentando me matar devagar".
Ninguém quer aceitar que um parente é suicida desde a infância, é sempre mais fácil colocar outras pessoas num alvo e fechar os olhos para o que realmente acontece. Comigo nunca foi diferente, eu dei vários sinais ao longo desses anos de que a morte era a minha maior obsessão. E também sei que tive sorte e azar em medidas calculadas, não são os amigos os piores pivôs da desgraça, 'na real' muita amizade te joga o salva vidas quando o barco tá indo pro fundo.
Penso constantemente: "Claro que eu tive sorte e tive o privilégio de encontrar amizades valiosas".
O que deveria já ter acontecido era uma morte selada, no lugar a respiração continua e as lições foram aprendidas, não foi mamão com açúcar, infelizmente. Mas foi como tinha que ser, sem querer passar um ar de sabiá erudita, no profundo desse poço eu estou subindo devagar e cada esforço custou muito caro.
Quando o experimento vira um vício a sua visão se torna totalmente turva, sair desse turbilhão é sim um motivo de comemoração. Não gosto de passar o ar de coitada, não sei se realmente sou a vítima dessas circunstâncias, sei que sou o produto das ações e escolhas, maturidade não se aprende com conselhos e broncas, a vida ensina com as porradas e todos os acidentes no percurso.
Quero ser a pessoa que diz: — Não use drogas, não entre nessa cilada.
A campanha deve ser sobre a valorização dos neurônios e isso é sim uma pauta urgente. O tempo realmente é precioso quando você está perto dos quarenta, mas, na juventude as pessoas fazem por impulso as ações mais imbecis. Isso é uma obsessão pseudo sobrenatural, não é legal viver chapando a mente, é só um motivo para fugir dessa realidade indiferente.
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