Lembro de pequenos vultos enquanto eu caminhava da minha casa ao centro comunitário no Sítio Triunfo, lembro do chão coberto de folhas secas e muitas folhas amarelas, lembro de ir observando as cores e os meus passos, correr, parar, andar devagar e escutar todos os sons naquele caminho, ouvir a voz de uma criança atrás de mim, olhar e não ver ninguém ali, algo soprava no meu ouvido direito, novamente olho para trás sem ver nada, a chegada no cajueiro e olhar a praia, o sabor do vento perto do rio é muito diferente e agradável. Lembro de ouvir aquele sussurro de lugar nenhum, voz calma e levemente maliciosa.
— Aqui era um cemitério indígena, você sabia?
Ninguém, só o barulho daquela voz. A curiosidade me fez perguntar.
— Muitos deles morreram aqui? – e recebi uma resposta inesperada:
— Uma tribo completa foi dizimada aqui. Eu também morri aqui, estava aguardando você chegar.
Pela voz parecia um curumim, vi a silhueta próxima do cajueiro, um criança, um espírito ali buscando alguém para conversar.
— Vamos brincar? Posso te ensinar a usar o meu arco e flechas e correr atrás da nossa caça.
Continuei ali olhando aquele menino sem roupas, apenas com uma espécie de cipó enrolado na cintura e cascas de bananeira secas cobrindo a virilha. Nunca tinha visto alguém tão diferente, após pensar um pouquinho, respondi:
— Tá bom, como se usa?
— Vem comigo, corre!
Corremos por uma grande área e depois na direção da praia, sentei na areia e esperei ele chegar, nada, nenhum passo, só o som do rio correndo e do vento nas árvores.
— Sumiu?
Simplesmente desapareceu, fiquei esperando ali por várias horas porque estava ansiosa para brincar com o novo amigo, ele nunca mais apareceu.
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