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Trovoadas na janela

 Vergam as tábuas dissonantes, rangem como se fossem quebrar a espinha da nave e me engolir em seu redemoinho.

Outros assuntos laterais  me perseguem, e adicionam ao réquiem o bater e rebater da escotilha destrancada, marcando o tempo o ribombar de meu peito acelera a cada nota da trovoada exterior, lágrimas e sangue penetram com a tempestade.

Doem-me os pequenos desvios automáticos da mente e corpo debilitados. A ira me consome e me impulsiona, tomando o leme ao último segundo e desviando a boreste poucos graus ante o recife de corais que certamente destruiriam a mim e demais tripulantes da nau. As falanges esbranquiçadas descascam-se e esfacelam se ao encontrar o obstáculo tão mal escondido na carta mal desenhada, o céu não mais me guia, as estrelas apagadas tornam mais difícil encontrar certeza dá rota adelante.

Enfim, o instinto que é agraciado pelos deuses do mar, amor e ódio de tantas culturas diferentes presentes me observam, dão-me pouco espaço para erros, e com o esforço jônico arrasto a antes imponente barca, agora esburacada e de véus e velas rasgadas pela dor dos ventos de tempestade, meu convés agora tomado de viscerais pedras de sal me aporta a um antes conhecido e agora transformado cais.

Vislumbro ao longe a finitude deste oceano extenso, atordoa-me em demasia toda essa monstruosidade de ondas revoltosas, as estrelas obscuras sustentam mais do que minha singela sanidade nesta noite tempestuosa. 

Cada estrela invisível no alto desta inatingível constelação tem um estranho poder sobre cada animal que atravessa o meu caminho neste reino repleto de água, mistério e obscuridade. 

As ondas me levam ao desconhecido, o barco dá sinais de que pode afundar com o próximo trovão atirado no casco, Poseidon, impiedoso, senhor dos mares, num desatino, suplico por proteção, mas, incerto de atingir tal gratificação.

Já sinto meus pulmões esgotados, talvez, seja parte de um sonho, uma alucinação, as janelas desta embarcação foram destruídas, e não cessa a loucura em meus ouvidos, vejo o furacão a poucos metros de meu precioso barco, é o famigerado olho d'água mais horripilante que meus olhos testemunham até este ignoto segundo. 

 — Oh! Poseidon, me ponho de joelhos diante de teu cataclisma, querendo com todas as minhas forças acordar deste pesadelo.

Mais uma trovoada atravessa a última janela, o furacão encontra-se a poucos centímetros da proa, não resta nenhum apelo, nenhuma oração, a minha voz sumiu por completo, aguardo a terrível realidade, - que os Deuses do Mar controlem o semi-destruido leme, - a minha consciência apenas observa o final.

(Escrito por Gabriel Rodrigues & Genniffer Moreira em 29 de janeiro de 2017)

Obs: O melhor escrito que nunca imaginei rabiscar. O Gabriel escreveu a maior parte. Só escrevi esse final, mas, gostei bastante de cada detalhe.

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