No auge da infância, provavelmente com 4 anos, sim, consigo lembrar de fragmentos dessa fase, frames desbotados, fotografias em câmera lenta, a criança observando a Natureza e o Céu.
Aquela pequena pessoa que pensava sem parar, questionando a Realidade, analisando as pequenas fagulhas do que era filosofia.
Lembro das perguntas complicadas que fazia e das respostas insalubres, a comicidade, a ingenuidade infantil, a beleza de encarar o cenário de nuvens que se pareciam com seres encantados, vários dragões enormes, várias formas enfeitiçando a visão.
Uma menina que sentia com intensidade a Poética no aspecto filosófico do Ser, nunca consegui ver versinhos e musiquinhas como algo atraente, com cada palavra e cada verso a mente registrava informações profundas. Ser tão contemplativa numa idade tão "precoce" era uma maldição, com isso vem de galope a depressão, esse sentir em sobrecarga redemoinhos e viver num alerta silencioso.
Li com facilidade muito nova, escrevi garranchos e fiz desenhos sobre os monstros e fantasmas, as excentricidades de ser uma idosa num corpo infantil, odiando as limitações de viver num corpo, nem era o ato de estar criança, era a depressão de estar num Mundo que não parecia ser o Meu Mundo. Sentia a ausência de pertencer, outras crianças eram como indivíduos completamente alheios a filosofia, ninguém na minha idade tinha interesse no que a minha cabeça pensava constantemente, só brincadeiras bobas e conversas sem sentido.
É terrível existir num meio que não processa as mesmas reflexões e conjecturas do Além da Realidade, do Além da Imaginação, do Além da Vida, sequer pensam na imutabilidade.
— Como dialogar com seres que vivem num plano perpendicular?
Exaustão. Ansiedade. Raiva. Por fim aquele sentimento de tristeza profunda. A criança que não deseja mais essa vida banal, região interiorana, a canoa e o rio Araguari, uma Natureza que vira a única forma de sentir que a vida pode ser um pouco melhor no futuro distante, só as horas na água como terapia, só os sons do vento e o cantar dos passarinhos como meio de conforto, só a visão das nuvens como meio de meditar e aliviar o barulho incessante de pensamentos que geravam outros pensamentos.
Pensar filosofia & poesia ainda criança e pensar no desenvolvimento da mente da adulta exausta é um exercício, é um mecanismo, é provavelmente a única fuga do desconforto de nascer divergente. Não existe uma salvação milagrosa, não existe uma fórmula mágica para viver em equilíbrio no dia a dia, só existe a filosofia e a poesia para que um pouco de beleza se faça visível no quadro dos pensamentos catastróficos. Acordar e respirar. Evitar uma crise, levantar da cama e desejar sobreviver.
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