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Cicatrizes do Espírito

 Eu não lembro o que era o almoço anteontem mas lembro claramente todo o bullying que passei na infância, lembro de uma vez, enquanto estava na escada da minha escola e uma menina que sempre me batia surgiu e assim do nada me empurrou.

Enquanto caia pelos degraus pensei: "se eu não tivesse nascido essa pessoa não estaria tentando me matar hoje".

Lembro de um dia na 7a série que o barulho estava insuportável naquela sala cheia de gente gritando, rindo e andando pra todo lado, eu simplesmente entrei em parafuso, resolvi bater minha cabeça na minha mesa várias vezes.

Eu bati com tanta força que pensei: "será que dá pra quebrar o crânio fazendo isso?". 

A sala toda ficou em silêncio. Todos olharam para a minha direção, não lembro o que aconteceu após isso, sempre após um surto de sobrecarga eu apagava do processador as informações, nunca compreendi o funcionamento do sistema nervoso nesse aspecto. Gostaria de recordar, mas, também gostaria de não ter nenhum vestígio dessas lembranças.

Acho que foi o meu primeiro surto assim em público, que eu lembre. Se eu tivesse continuado a bater a cabeça ali poderia ter tido um traumatismo craniano, nunca saberei.

Lembro de um dia na 5a série, fiquei forçando o lápis na minha mão até que ele perfurou e até hoje tenho um ponto escuro no lugar que a ponta do lápis cortou. Muitas vezes eu mastigava a bunda do meu lápis durante as aulas de forma automática. Simplesmente nem percebia, só voltava a realidade após ver os destroços do que deveria ser um lápis.

Mordi várias borrachas e teve episódio que eu quebrava as canetas de tanto apertar. Sujava as mãos e o uniforme branco daquela tinta, e não conseguia reconhecer porque aquilo tinha acontecido, um lapso.

Talvez, fosse o início da ansiedade ou só a realidade clara das minhas esquisitices. A sensação era desagradável. Eu odiava outras crianças e odiava conversar com as pessoas, fugia pra biblioteca da escola sempre que tinha oportunidade. 

Ainda hoje odeio a grande maioria das pessoas. Às vezes penso no ser humano como um animal irracional que finge ser racional, mas, depois volto a realidade e tento ser o mais normal possível. Costumo pensar: "é só um pequeno surto, vai passar logo, respira".

Já li várias e várias vezes sobre os traumas da infância, sou uma enciclopédia ambulante dessas pequenas certezas, as feridas da criança interior, esse blá blá blá sem fim. As cicatrizes são reais, infelizmente.

Chegue a conclusão que não é sobre criança interna ferida, mesmo que você cresce, é sobre você independente da idade, a adolescente continua quebrada, a jovem, a adulta, e a idosa continuam com as mesmas cicatrizes, talvez o certo seria dizer que é o espírito ferido, a fagulha de ser que recebeu tantos golpes no âmago, sobrando apenas esses fractais espalhados por lugares diferentes nos eixos do sentimento/emoção, isso tudo gera uma exaustão sobre humana, é pesado e causa dor na lombar.

Comentários

  1. Ganhou uma nova leitora, do interior do Amapá. Tenho andado com dores na lombar tbm, igual ao personagem, querid@! Abraço.

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  2. Palavras que doem de ler. Sinto muito pelo que passou. Que bom que temos a escrita e arte pra amenizar essas nossas dores ou pelo menos compartilhar elas. Obrigada por compartilhar ✨🌻🙏🏼❤️

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