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Mostrando postagens de 2025

Fetiche Sensacional

 Entre as lacunas dos dias de depressão e as crises, um gato mandou a mensagem que fez o destino mudar, ou essa foi a desculpa do homem para continuar conversando com Karine, até o nome do gatinho ele disse com sua cômica intenção. — Desculpa, meu gato laranja te enviou essa mensagem, não sei como ele conseguiu entrar no teu bate-papo. E ai como você está? — Oi, que coisa mais louca. Estou com crises de ansiedade, sobrevivendo aos dias pós pandemia. E você, tudo bem? — Então, meu gatinho Kino mexeu no computador, mas, aqui também ando sentindo depressão. Se quiser conversar. — Faz um tempo né, não sei, acho que preciso ir no psiquiatra, estou procrastinando e evito pensar. Talvez seja melhor você me bloquear, assim evita que teu gato mande mensagem. Ele pediu meu número do WhatsApp, mandou mensagem e bloqueou no bate-papo do Messenger, o que achei meio doido, mas, resolvi ir na onda, já que não tinha nada mais interessante para distrair da minha sensação de Pânico. — Karine, confes...

Crônica do Armário

Quando eu tinha uns 21 ou 22 anos pensei que me casaria com a moça ideal, sim, mulher, nunca sequer cogitei casamento com qualquer cara, achava a grande maioria dos homens imbecis e vulgares, não todos, tive e tenho amigos queridos.  No quesito relacionamento sim vi situações que me fizeram entender que é melhor casar com uma pessoa do mesmo sexo, pelo companheirismo, ter uma amiga pra segurar a mão nas piores horas e também nos dias mais felizes. A grande maioria dos meus poemas sempre foram para mulheres idealizadas, alguns para amores platônicos e para o amor que feneceu, eu tentei sair do meu armário algumas vezes e parecia uma coisa tão angustiante e tenebrosa, eu tentei seguir o caminho cômodo também e ficava parada observando aquele cenário ilusório e falso. Tentei me analisar e me revirar externa e internamente, queria não ser eu, ser qualquer outra pessoa, quis ser um homem e imaginei que seria um sonho delirante não ser mulher, não nascer mulher, odiei a minha imagem no e...

Os sopros do Além

 Existe um tipo fluido de vitalidade para além da vida e esquecemos de nossas cara-passas nessa estranha quimera dos novos dias.  As nuances dos ciclos entre primavera e inverno, horas de folhas caindo no chão, alguns sons do além são como o soprar do vento. As pequenas cigarras surgem com seu zumbir característico nesse vácuo da linha. Aquelas estranhas qualidades que não notamos no primeiro momento, veja a sutileza desses sons. — Os véus precisam cair. Um corvo me disse num sonho, e ele tinha 4 olhos e um terceiro olho maior no meio, parecia um tipo mutante de pássaro divinatório e isso me assustou por vários dias. Os sinais e os sonhos, não sei como ou para que possuem essas aleatórias conexões. As camadas e os véus da realidade, as loucuras e as certezas.

Uma crônica da depressão

Eu usava o cabelo curtíssimo, era o tipo caminhoneira e não usava decotes, por muitos anos pensei entre a revolta e aquela tristeza, da onde os caras surgia das trevas era uma incógnita, todavia, após os 30+ ainda apareceu alguns, mas no geral o meu trauma persistiu e no máximo peguei uns caras na mesma faixa de idade, ou, no máximo 2 a 3 anos mais velhos. A fase mais cômica: eu fiz meus antigos namorados usarem batom e vestido só porque isso era mais agradável. Nenhum deles tinha prazer em se vestir de maneira feminina, e claro que justamente por isso era mais engraçado. Para além da comicidade, eu sentia maior satisfação em ver um homem com maquiagem. Homens héteros de batom são atraentes. Ou seja, eu os traumatizei também. Coitados. Justiça divina ou sei lá, foi divertido demais. Sinceramente, não me arrependo de pressionar ex-afetos a serem um pouquinho femininos na intimidade. Só que ao final desses relacionamentos, consegui traumas e chifres, esses pequenos desejos equilibraram a...

A saudade azul e cinza

Sempre te dediquei poemas azuis e meu amor cinzento que se desbotava, enquanto, febril e louca me iludia numa obsessão silenciosa, o nosso amor morreu.  Viramos grandes amigas e tua companhia era o meu mar de felicidade por anos de juventude e experiências amalucadas, a melhor companhia numa viagem pela estrada e a melhor amizade que o céu e a terra já me proporcionou. Confesso que chorei por vários meses, também me senti muito culpada e tola. Sinceramente eu sofri em silêncio e sentindo que merecia mesmo o frio e a distância, sentindo essa saudade azul e cinza. No silêncio guardei as minhas dores e paranóias, no silêncio escondi toda a tristeza da falta e dos fragmentos de lembranças, no silêncio eu continuo desejando não perder a amiga querida que eu tanto amei com todos os tons de azul. A minha alma sente essa saudade azul e cinza todos os dias e todas as noites, essa sensação de perder uma parte importante do Coração e viver num corpo meio desconfortável e desconectado do mundo...

Eu gosto de dormir

 O que vejo quando acordo é o alto de uma montanha e lá no centro aquela sinistra árvore imensa que poderia tombar no olho de um furacão, as flores amarelas caindo aos montes, o cheiro da chuva tempestuosa e todos os raios que caem no mesmo lugar. Eu estou de olhos abertos e continuo vendo o desenrolar desse cenário caótico com a nitidez tão crua que sempre me choca, a vida urge e minha mente permanece exausta. O dia amanheceu e não quero acordar, vou divagar pela somatória das horas e resistir ao desejo de olhar pela janela. Eu gosto de dormir e isso não é só um ato de procrastinação inefável, a realidade é uma roda em brasa, esse inesgotável calor das manhãs. Eu só preciso dormir por 8 horas completas, mas, quase sempre a insônia me aprisionava no início das madrugadas. Eu gosto de dormir, enquanto o mundo explode numa grandiosa fumaça meteórica, dormir e encontrar velhos amigos nesses sonhos fantasmagóricos, só dormir pelo período de meses sem gritar na metade da madrugada porqu...

Fantasma

 Pensei num conto, não um clichê das anedotas mais comuns. O que pensei tinha uma coesão e o personagem bem pautado, era uma história com base fictícia, e tons da realidade. O ser que sempre aparecia no telhado após o relógio marcar 23h45 e no auge da madrugada ele ficava ao lado da cama. Experiência angustiante de várias lembranças, aquele homem invisível tentando me enforcar, a sensação vivida das mãos apertando o meu pescoço e ninguém ali. Eu escutava o seu grosseiro linguajar, tremendo, todas as suas palavras de escárnio e perversa intenção, um assassino vulgar. No início não rezei, não falei sequer um "ah", apenas fiquei olhando pro vazio e tentando compreender aquela situação tenebrosa. Após os meses e os anos, não cheguei a rezar, mas, pedi intercessão divina, gesticulando que não merecia aquele visitante. As vezes ele ia embora mais cedo, outras vezes ficava rindo e insinuando que eu era uma criatura desprovida de sorte. Até que simplesmente me acostumei e passei a te...

A decadência do pensar

 Imaginei por anos que seria reconhecida e teria valor pelo que escrevo, talvez foi um desejo insano, apenas um pequeno delírio que a geração me fez comprar. O foco é: nossa era mudou com um terremoto sagaz. As pessoas que lêem na atualidade querem pílulas de positividade e auto ajuda rápida. E eu queria publicar "Lágrimas em Versos", ou seja, a decadência do pensamento depressivo que cataloguei por anos num livro de palavras sobre dores. Um simples delírio. Penso que fui sim um fracasso desde o princípio e isso até me conforta, antes era terrível admitir a minha medíocre sentença. Agora até me vejo sorrindo e dizendo "faz parte". O meu ego e o meu antigo eu-lirico ansiavam por leitores e atenção, era a carência infantil de ser uma ameba humana. A doença daquele século. Se ninguém vier ler não vou ficar como outrora, ao contrário, as vezes escrevo somente para as sombras e os fantasmas que me atormetavam durante os dias de chuva e trovões da infância. Aquela criança...

Revelando desejos

 O gosto daquele beijo nunca saiu do meu pensamento, e tenho noites que volto pra mesma cena num tipo de transe que me incomoda.  Observo todos os ângulos e gesticulo para fantasmas que se ocultam da minha vista, mas, a presença é como um peso nos cantos dessa casa.  Sempre pergunto: "Por que ele decidiu ir embora assim?" - abro a porta e olho a rua deserta. As estações passaram e anos e anos já terminaram, não lembro da conversa por completo, lembro do sorriso dele com aquele ar de malícia costumeira, os olhos dele que me chamavam em silêncio.  Aquela certeza que sempre vou guardar no meu baú de coisas preciosas.  As mãos macias tocando meu rosto. Já quis esquecer e já quis fingir indiferença, já deixei todos esses fragmentos dispersos e já registrei num papel um desejo secreto, queimei e decidi bloquear as lembranças. Eu lembro do rosto dele aos 15 anos e lembro de cada abraço e cada vez que seguramos nossas mãos e dos pequenos carinhos, éramos tão jovens e ob...

Delírios do cotidiano

 Aquele pensamento que consome todas as sinapses neurais e causa um surto num sonho lúcido, é como uma fuga da realidade infeliz. Ganhei um livro sobre "mente positiva" e não consegui sentir gratidão, só a costumeira exaustão da tarde.  Olho pras paredes quando me sinto sobrecarregada, é automático e não é um hábito que me apetece. Só outra loucura comum. Eu tenho rigidez cognitiva ou sou apenas depressiva? Pergunto pro inconsciente e respondo deliberando brevemente: "só queria estar morta e nunca sequer vir a existência". Eu comia o dicionário com os olhos arregalados, mas, odiava pessoas na minha fase infantil. Ainda odeio pessoas, não todas, a maioria apenas. O cheiro de livro novo é sinestesia pura. Não escrevo tanto quanto gostaria, estou ocupada tentando sobreviver. Cheguei aos anos da decadência mental e sei que fui um fracasso em várias coisas, ser um fracasso também é parte do cotidiano. As pessoas gostam de ser especiais e talentosas, eu gosto de dormir.

Maio de 2003

 A jovem e intensa criança que queria ter um amor ilusório e sonhava com uma fantasia tão pueril. Em 2003, mês de maio passei a escrever numa agenda sobre diversas coisas do dia. Escrevi sobre os sonhos, as amizades, os mangás que eu lia, sobre as viagens de Macapá ao sítio Triunfo. Histórias que eu guardei somente ali e fiz questão de esquecer. Esquecer é um privilégio que merece todo o valor. Foi uma fase, só uma fase que passou, e remoer não é saudável, porém, uma pessoa depressiva gosta de remoer pequenas culpas, é um ato muito importante para a mente malfadada de um ansioso. Descobri que todo depressivo já foi por muito tempo ansioso. Um fato infeliz. Estou em 2025 remoendo as vagas lembranças do ano de 2003, acordo e antes de tomar café bebo um copo de água com o gosto das lamentações. Que gosto ácido e indigesto. Fico horas e horas analisando as decisões, as ações daquela adolescente imbecil e chego a rir sozinha de cada pequena coisa que vivi. O que eu não deveria ter feito...