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O espírito ancestral

 Era um indígena com uma presença impactante, ele tinha aquela intenção de causar um susto, silencioso, enorme, estava conectado ao grande tajá roxo no quintal, eu sempre que passava perto da planta via o vulto do espírito imponente. Falei dele para duas pessoas distintas, nunca falei nada para minha mãe, ela um dia disse que viu e descreveu exatamente da mesma forma, observei aquilo com curiosidade no início, depois comecei a olhar para ele e questionar: "O que você faz aqui no quintal da 'minha casa', não deveria ir pra outro lugar?" Ele não me respondeu, olhou para minha direita de forma fria e depois voltou a ficar na posição de guarda costas de alguém ou alguma coisa, isso me irritava, a curiosidade e a reação do espírito. "O que você guarda aí?" Ele não respondeu novamente. Mexeu os braços em forma de indiferença total, e isso me espantou, geralmente os espíritos vinham puxar papo comigo, e eu que evitava entrar nas conversas, aquele indígena não queri...
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Hipomania do dia

  Não é sobre o hoje, faz uns dias, talvez faça anos, podem ser apenas semanas, a mente distorce e a pressão registra aquele impulso feroz de causar uma explosão na rachadura. É sempre uma questão de seguir decisões que colapsam e geram tempestade no caos de dias mortos, não é poético. Parece uma febre, aquele súbito desejo de arriscar todas as fichas, um jogo sem sorte, uma resposta do cérebro que necessita de uma loucura nova para cumprir seu papel. Tem as mensagens e as fotos, tem cada nota de informação, a foto do perfil aparece, digitar no automático, esperar uma resposta breve. Reunião de uma conversa muito séria e decisões que deveriam ser ditas num simples e-mail e o final, a saída do fundo do abísmo e a volta por cima, tudo pretexto para encontrar uma fuga perfeita. Aquela missão de escutar a Voz da sabedoria e ir na direção do algoz, aquele homem não ama a esposa, não ama a amante, não ama o futuro filho no ventre da esposa, não ama sequer os gatos que cercam a sua casa d...

Outro lapso cotidiano

  Escrevi um parágrafo sobre a demência. Não era uma tese de doutorado, não era uma dissertação, não era uma crítica construtiva e direcionada ao público de um único estabelecimento. Era um surto no contexto mais cru e cruel dessa síntese, um surto entre os dramas da vida adulta, um surto que gritava em milhares de vozes num crânio meio dilatado da normalidade. Sem querer, sem entender, sem sair de dentro do espelho do banheiro, sem desejar uma transformação. Era um surto movido por dissociações e a rejeição, o embaçamento de olhos e a surdez configurada pela sensibilidade que todas as visões ao mesmo tempo causavam nos glóbulos oculares. Nem todo burro vira indigente e nem todo doutor vira gente. São frases ecoando e ecoando, não existe a definição da crônica propriamente dita, não classificado, não como conto ou como qualquer coisa além dessa lacuna de significado. Não é vácuo. Não é só um simples surto, houve taquicardia, houve euforia, houve dor no corpo inteiro e a vontade de ...

A porta entre aberta

  Aquela mulher gritava para se fazer de vítima, existe um tipo singular de mãe e existe uma realidade que é guardada nessas lápides de lajotas e mármore. Os cemitérios tem respostas e segredos, aqueles túmulos contam fatos e levam retratos que se apagam com o calor e a chuva, são zonas no mundo de meditações e sabedoria silenciosa, muitas vezes é um grito que ensurdece no espírito. Dessa realidade levamos verdades e dilemas, pensar no outro lado era entre turbilhão de emoções e a placidez da finalização de alguma jornada, esse nome gera sempre uma metáfora que faísca no pensamento, encontrar a jornada faz parte da jornada, essa estrada é o começo da jornada, tem várias bifurcações e ainda assim existe a falácia pomposa que é tudo sobre a jornada.  Os anos voam. Escolher qual caminho e qual decisão tem um eco, a percepção que fica é de que alguém teve que inventar essa palavra para criar uma ilusão bonita que satisfaça a nossa angústia. Escrever sobre chaves e portas, escrever...

Letargia Provisória

  A lentidão das horas numa embriaguez  de pensamentos  Escrito na parede com letras verdes um verso qualquer  Odeio a simetria que correu das rimas e contou uma crônica: Era setembro e não chovia, estava observando a parede uma senhora, sem chorar ou rir, apenas olhando para o nada.  Encontrou aquelas frases e se perdeu dentro da mente, leu, releu, nunca mais esqueceu. "O primeiro pecador sofreu". "O segundo pecador morreu". "O terceiro pecador sou EU".

Delírio sem remédio

  As mensagens e as desculpas que não retratam horas e caminhos. Esse não é um conto sobre a paixão envolvente que chega tão tarde, era carinho e delírio. Essa voz grave, essa voz rouca, essa voz que a imaginação criou para amarrar as lacunas, olhos cansados dessa mesmice que corrói a mente, não é um conto clichê sobre o primeiro amor. São impulsos e frases numa rede  virtual para afagar essa carência que transborda, impulsos de um cérebro exausto.  Era um novo delírio, virou um flerte e uma rejeição, não era sobre paixão ou sobre permanecer numa ilusão tão frágil, era uma boa escolha de palavras e o sentimento que nunca foi dito. Ele me rejeitou falando que se apaixonou e recebeu pequenas doses de lembranças dolorosas, sei que fui a algoz de vários sentimentos que mantive na caixa de cartas para esquecer de minha própria infelicidade.  Perdi as cartas, rasguei os papéis, cortei todas as pequenas formas de amor num delírio silencioso. Auto sabotagem é parte dessa jor...

Horror psicológico

  Tem gente fanática por horror, tem gente fanática por pensamentos enraizados e tem gente que mata gente para comer pedaços raros da carne humana. Não é um conto simples do canibalismo humano e das elites, poderia ser.  É sobre o canibalismo por baixo dessas camadas de revolta e soberania. Não gosto de preencher todo o quadro negro, o sangue escorre nas paredes, o sangue também é bebida rara dos vampiros antigos. Tem um conto nessa história, porém, não tem uma história sobre esse conto. Delineada no portão da memória ficou trancada essa crônica, pedaços humanos e porcos comendo a carne que foi cortadinha em pedaços, o ser humano é tão pequeno, existe um ego enorme nesse corpo pequeno, existe um sofrimento em cada filme de terror brasileiro, eu ia falar somente do horror psicológico. A lenda que fica ali no ar. Aquele fantasma veio assombrar o seu algoz? São camadas que geram mais camadas e medo numa frequência que não pode ser controlada, o pedaço do corpo humano mais caro é ...