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A lembrança ignorada

Estava chovendo, ouvir o barulho das gotas caindo no telhado lhe enchiam de nostalgia e melancolia. E essa capacidade desenvolvida por ela de rememorar através dos sonhos coisas de muito antes, de muito além da pessoa que ela pensava ser lhe fizeram perceber o quanto as suas lembranças podiam parecer intensas e complicadas de decifrar.

 A dor em seu coração começava a aumentar a cada segundo passado no maravilhoso e surreal "mundo dos sonhos", pois, embora ouvisse claramente as batidas da chuva em seu telhado, o certo é que ela ainda dormia e sonhava, ignorando tudo ao seu redor, exceto pela sensação de frio e o barulho causado pela chuva forte que maltratava o seu telhado.

Um gato miando feio era ouvido ao longe, os cachorros latiam descontrolados nos quintais vizinhos, porém, a moça continuava tendo o seu novo e esclarecedor sonho, isso a deixava totalmente esgotada, esse sonho vinha lhe mostrando certas coisas intrigantes, detalhes calamitantes. Infelizmente, ela o recordou muito pouco quando acordou, todavia, em seu intimo tinha uma certeza: havia realmente passado aquelas horas delicadas e esclarecedoras, não era só um simples sonho. Por isso o esquecimento era como um balsamo, delicado, muito caro para o espírito humano.

Ela não ignorava as partes funestas do sonho, a sua lembrança mais vivida após se levantar da cama era de haver estado com Uriel, novamente aquele nome, novamente aquela sensação familiar de tristeza e saudade, novamente aquela doce lembrança desbotando em sua mente. Novamente ela pensava no mistério por trás dos sonhos, no porque de recordar essas memorias estranhas e confusas que lhe afligiam a alma.

Talvez não fosse novidade, pois agora seu pensamento divergia e ela se via não apenas umas poucas horas do dia sonhando acordada, mas, por anos extensos, talvez 13 ou 14 anos, talvez mais, ela não conseguia calcular com exatidão, as imagens iam se apagando enquanto ela acordava para a vida que devia viver, uma vida que ela detestava, essa vida, sua atual e complicada vida.

Nesse momento ela sabia o que extinguirá sua vida, não essa, aquela outra vida, e sabia que passou um tempo ao lado dele, não do homem que amava, mas do seu carrasco, sabia que ele não era malévolo ou cruel, no entanto, ele tomou uma péssima decisão naquela vida. E até eles foram felizes por um curto espaço de tempo. Um curtíssimo espaço de tempo.

Considerado-se o longo sofrimento que ele, o coitado, o noivo indesejado devia ter tido que passar depois de disparar contra o peito dela. Agora seu coração sabia exatamente como haviam desencarnado (Uriel e Amália, sim, o nome dela era esse naqueles tempos, ela lembrou e se alegrou desse detalhe não ter se apagado em sua memória, o motivo, a pessoa que lhes ceifou a vida, tudo, ela conseguia lembrar-se até mesmo do desfecho que levou a trágica morte de seu amado), Uriel levou um tiro abraçado a ela, o homem que os matou lamentou o fato de ela ter aparado o primeiro tiro destinado ao pobre e belo Uriel, por um lado, a relação deles era perigosa por ele ser o seu querido primo-irmão, por outro lado, na visão dela só ele irradiava delicadeza e beleza, Uriel era tão jovem e lindo.

Amália o amava além do permitido, o sangue que os unia e fizera com que seus pais os separassem por 1 ano inteiro quando descobriram a ligação existente entre ambos, dilacerara seu coração. Ela não ligava pro destino maldoso que levara seu primeiro e único amor, ela o AMARIA eternamente. E saber que ele também há amaria era só o que importava.

Precisou ser bem-avisada constantemente pelos pais, precisou ser prisioneira de seu destino para recordar da sua grande perda, naquela época Uriel ainda não era chamado dessa forma na vida em que tiveram a mais forte ligação amorosa, a mais trágica morte e o mais intenso experimento como humanos, ele era chamado de Luriel, por isso ela demorou tanto para recordar dele, esse é um detalhe importantíssimo que esqueceu com a morte, ressaltar inicialmente sobre sua morte a desgastava, com estranheza ela entendeu uma outra parte do mistério, a verdade é que Uriel seria o nome atual dele, o nome antigo tinha se apagado por completo e ele não desejava que ela continuasse pensando nele através daquele nome.

Naquela tarde, antes da tragédia, Amália completava seus 18 anos, o noivo inconveniente e nada atraente aos olhos dela, só aos olhos dela, deixemos claro que todas as moças jovens e solteiras da cidade fariam de um tudo para ter a oportunidade de casar com o mais rico e refinado filho do Conde L, o glamuroso Lord L, sim, ele era Lord. Pensem numa situação calamitosa, pois teve Amália o azar de ser a prometida desse homem, enfim, ele lhe tinha trazido um belo colar de pérolas e o mais caro vestido como presentes, ela não fez nem sequer a bondade de observar as caixas quando lhe foram dadas. Detestava ter que aturar o belo Lord que seus pais tinham transformado em seu noivo. Detestava seus amados pais por terem vendido ao pai do Lord sua liberdade somente para manterem o bom nome da família.

E detestava o fato de Luriel ter-lhe abandonado para estudar na mais ilustre faculdade da Inglaterra, e morria de desgosto por não ver Arthon, seu único amigo. Ah, Arthon, o filho único do empregado que era considerado o braço direito de seu pai. Este tinha ido embora também, estudar na melhor instituição francesa para mordomos. 

Amália era a moça mais triste há completar 18 anos naquele fatídico dia. E talvez ficasse mais triste se soubesse como morreria, mas, isso deixarei para contar-lhes em outro dia.

Comentários

  1. Quero mais, mais, mais! *.* Adorei isso!

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  2. estou aqui para agradecer a visita....
    ja estou seguindo suas paginas, e também favoritei seus blogs. la no Devaneio Mental

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  3. Disponha! Te agradeço imensamente, moço! =)

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  4. Achei muito interessante! Gostei

    Me fez lembrar minha infância, e as chuvas daquela época!

    :)

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  5. Bom saber! Tbm adoro a chuva, e lembranças da infância.
    Boa tarde pra todos!

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