Encontrei André numa praça, cheia de árvores bonitas, um lago pitoresco, quiçá charmoso e familiar, lembro do colete, não sei como, acordei com aquele colete que não era meu, pensei:
— Será que eu tomei o colete do menino?
Apenas tive respingos de lembranças que se misturavam como a borra de café na água quando lavamos o bule, passei vários minutos me perguntando por que diabos eu tinha vestido aquele colete.
Era uma roupa muito colorida com uma característica artística que me fazia sentir que deveria guardar e não devolver, no fim, eu devolvi, a consciência não me deixou manter guardado algo que aquele rapaz também devia ter apreço. Afinal era um colete tão bonito.
Sinto decepcionar por não ter lembranças da conversa quando entreguei o colete para o respectivo dono, lembro que foi numa festa na casa do Diego, lembro das bebidas e das músicas, lembro vagamente das risadas, lembro de ficar em silêncio e pensar sobre como iniciar uma conversa, esqueci por completo o diálogo, é terrível ter uma memória tão fraca.
Juro! Queria lembrar porque ali fiz um amigo que se tornou meu melhor amigo por anos e anos. Um amigo pra ir até o infinito e além, escrevo isso rindo, mas, é verdade. Qualquer coisa era divertida porque a companhia era tão calma e existia aquela telepatia, sei lá, não precisava muita conversa, só olhar um pra cara do outro e rir, queria lembrar de todas as músicas que tu tinha na playlist, todas mágicas.
Era uma trilha sonora impecável!
A música, o brilho no olhar e as risadas observando as ruas, gastando o asfalto quente pelos cantos de Macapá, é bom lembrar dessas imagens e como eu queria ter uma câmera para filmar esses trajetos, a sonoplastia realmente era sempre perfeita.
Sei que a ausência não diminui o afeto, mas, confesso que sinto saudades da liberdade da nossa juventude. De só sair sem hora pra voltar, só ver as casas, os becos, as esquinas, o filme daquela viagem. Acredito que era uma experiência. Era revolucionário também. Era real, a realidade e a vivência de correr.
Aquele vento no rosto, a certeza de que não importava muito pra onde o carro fosse, importava a companhia e a amizade sincera. As aventuras nas ruas que pareciam sempre novas e empolgantes, o céu, o cheiro da vegetação e o percurso saindo da cidade.
— Lembra quando fomos olhar o pôr do sol e a brisa do rio era agradável demais? – só me lembro de ficar horas olhando o rio e sentindo a água nos pés.
Um dia eu vou acordar e talvez não consiga lembrar de Frank Zappa ou de Júpiter Maçã, mas, não queria esquecer de registrar a emoção de partilhar lembranças com um grande amigo. Não sei do que vai ser do futuro, sei que tive um passado com risadas e abraços que não poderia substituir. Ninguém poderia substituir essas viagens e isso deve ser o sentido, nem sei explicar, queria finalizar com frases mais poéticas, no entanto, o que importa é ter vivido a experiência. Que você esteja bem.
Acho que foi sorte, André. A vida é um sopro.
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