Quando se pensa em escrever na folha branca com linhas retas e pretas os rascunhos de um poema, a inspiração simplesmente some, e olhar para as linhas da folha de papel é como olhar para o vazio de um imenso buraco negro, as linhas finas e certeiras parecem metáforas retas de algo que não pode ser descrito em palavras. A caneta escorrega dos dedos e cai silenciosa na mesa de madeira velha, o silêncio ensurdece os espaços fragmentados da mente dormente, enquanto o papel sussurra as suas risadas para o nada.
O papel sussurra as suas risadas para o grandioso nada, nesse meio tempo fosco a caneta quebrada no centro da mesa choraminga lamentos por não ser amada, a tinta azul-marinho da infeliz caneta vai escorrendo e manchando a toalha florida que cobre a velha e desgastada mesa de madeira. A mancha azul-marinho no centro da toalha de mesa florida e suja vai se espalhando na forma de uma frágil folha torta, uma folha que parece não ter linhas nem contorno.
Ao contornar a mesa no momento em que a caneta parou de derramar-se com sua tinta azul-marinho lacrimosa a poetisa sem inspiração vê-se observando a mancha em formato de folha e contemplando a inutilidade humana em cada segundo que se passa no relógio da sala, os sons da casa lhe fazem pensar na folha branca com linhas retas e pretas do caderninho jogado no canto da mesa manchada de madeira velha e silenciosa. A caneta é jogada no lixeiro de qualquer maneira e sofre sozinha por ter sido quebrada e descartada como se não fosse nada. O coração da caneta perdeu a cor, a tinta azul-marinho na toalha florida não pode ser removida, o coração da caneta é a tinta que manchou a toalha florida.
Sem coração, quebrada e sozinha a caneta chora dentro do lixeiro fedido e gosmento. A toalha da mesa agora suja de tinta é levada ao cesto de roupas sujas e embolada antes de ser socada no cesto, a toalha florida e manchada se sente um pedaço de pano sujo e sem valor, no cesto de roupas sujas ela fica a lamentar-se de ter nascido toalha de mesa. A mesa de madeira velha e descoberta sente falta de sua toalha florida, mas, logo é coberta por uma toalha de mesa com figuras de xícaras e bules de café, uma toalha nova e cheirando a amaciante, a mesa de madeira velha pode sorrir, pois acabou ganhando uma nova amiga e esquece facilmente da sua antiga toalha florida e suja.
O caderninho com folhas brancas e linhas retas na cor preta é novamente colocado em cima da mesa de madeira velha, a poetisa procura outra caneta e recomeça a olhar para as linhas retas e pretas do seu caderninho de poemas e divagações. A inspiração de outrora deu lugar a frustração do agora, repleta de pensamentos sobre o quebrar de uma caneta e o silêncio ensurdecedor que dá lugar ao desespero de observar uma toalha velha ser pintada pela tinta da caneta quebrada. A poetisa, então, desisti de escrever e resolve guardar o seu velho caderninho de poemas e divagações na gaveta do armário de madeira velho que guarda os melhores livros empoeirados dos melhores poetas mortos da infeliz poetisa. Após guardar seu caderninho velho e cheio de poemas tristes e funestos na gaveta do armário de madeira a silenciosa poetisa sorri e deixa de pensar em linhas retas e pretas para pensar em qual será o fim do seu enfadonho dia.

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