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A lembrança delineada

frio não era mais tão congelado - ao fim da noite, principiando a madrugada avulsa dos meus olhos. Avistar o céu parecia o melhor dos planos. Avistar o céu e não ver nada. Avistar o céu em plena madrugada; o frio que não poderia macular a minha agonia, esse frio que envolvia minha alma, amortecendo a dor em meu coração. A dor se transformando em pura ilusão. 

E o céu bem que poderia transformar-se em pedra sabão, o escuro transmitindo a breve sensação de solidão. A lua apartando-me das belezas do sol, enfeitiçando meu desespero ao crepúsculo de cada dia. Essa brevidade do ser repercutindo na totalidade desses meus medos morbidamente letais. Penso na loucura de partir sem rumo, penso na efemeridade de meus pensamentos.

Oprimida fiquei olhando as nuvens antes do céu clarear. Antes, muito antes desses episódios deprimentes, em outras vidas, vidas diferentes, eu tive um fim menos decadente, eu tive sonhos menos atraentes, eu tive a sorte de morrer dormindo. Entretanto, nesta vida calma e cheia de suspiros, vi a morte olhar-me friamente e sorrir pausadamente, antes de me ferir mortalmente.

Busquei além do véu palavras sedutoras, versos sem o amargor da morte, busquei flores e frutas secas, busquei já cega e louca por palavras doces antes do meu corpo decompor-se na terra dos vermes esquecidos. Cada mordida foi marcando a minha pseudo vida, cada fragmento da carne foi comido no decorrer dos anos, enquanto a minha loucura atingia níveis elevados.

Não recordo com precisão dos anos que vivi desencarnada, não recordo de quase nada, o esquecimento pode ser o melhor dos remédios para os loucos. Esquecer foi minha melhor lembrança, não chorar e não ver a dimensão de minhas dores era sem duvida o melhor de todos os sonhos. A brevidade do ser parece falácia mal delineada por filósofos bêbados, a essência da vida parece um devaneio.

Agora, convivo com outras alucinações, vejo a rapidez com que o tempo corre sem freios, ele é um carro desgovernado indo de encontro ao maior dos despenhadeiros. Vejo pedaços das minhas lembranças se apagando no emaranhado de pensamentos vagos que surgem em minha mente. A vida passa sem pressa, a vida suspira, a vida passa chorando. Enfim, a vida sorri.






Comentários

  1. E tudo começou olhando para o céu... Esse texto é bem Gennifer Moreira. É assim mesmo, muitas vidas, tudo muito breve e fosco ao mesmo tempo.

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