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A lembrança apagada

Amanheceu e ela se sentia cansada, muito cansada. Não tinha vontade de levantar-se de sua cama, queria apenas lembrar com exatidão de tudo o que lhe tinha acontecido, enquanto sonhava. 

Os seus sonhos haviam lhe mostrado cenas familiares, ao mesmo tempo estranhas demais para serem bem organizadas em seu cérebro semi-desperto, tudo isso a fazia querer voltar a sonhar, poder absorver mais informações a respeito do significado de cada uma das cenas que lhe apareciam naquelas horas esclarecedoras e distantes.


Tudo o que ela sabia era considerado pouco, insondável e revoltante-mente confuso, porém isto era algo precioso. Todas as lembranças rememoradas em seus sonhos se interligavam, cada pedacinho de imagem que ela recordava ao acordar lhe mostrava um pouquinho sobre ela mesma e suas vidas, eram essas vidas tão diferentes da sua atual vida, ainda assim, ela ansiava por conhecer todos os detalhes decorrentes dessas e d’outras vidas.

O coração dela palpitava, podemos dizer que ele pulava alucinadamente em seu  frágil peito,  todas às vezes que aquelas imagens quase apagadas clareavam em sua mente, ela tinha um pensamento recorrente. A sensação de bem-estar era absurdamente estranha, pensar nas diversas pessoas (des)conhecidas que apareceram em todos os seus sonhos há fascinavam de um modo mórbido. As lembranças apagadas ao serem visualizadas faziam os seus ossos tremerem de tanta ansiedade e desespero por não poder vê-lo nessa existência.

Amália sabia da dolorosa verdade, ele não poderia participar de suas experiências na nova vida, a atual vida. Nessa sua desastrosa existência ela teria o dever de permanecer sozinha, esse era o seu maior medo e justamente por maldade do destino, ou talvez os seus crimes necessitassem principiar diante da companhia do primo-irmão amado. Uriel não poderia abraçar seu frio corpo nem sussurrar palavras doces em seus ouvidos, ela compreendia isso, entretanto, sofria e chorava sem parar, pois não suportava nem sequer pensar nessa sua terrível situação.

O amor dele era imenso, todavia, o amor de Amália era desses que pedia sempre pelo calor da presença de seu querido objeto amado, ela não saberia completar toda uma longa extensão de dias sem ter nenhuma lembrança do significado profundamente belo que o amor de e por Uriel lhe tinha ensinado. Apagar tudo não era fácil, a tristeza dilacerava-lhe a alma, nascer novamente significava perder a melhor e maior felicidade já vivenciada pela pobre e infeliz Amália. É disso que trata essa insuportável e apagada lembrança, a dor foi apagada momentaneamente até ela adquirir a idade de 17 anos.

Após esse período de esquecimento e aprendizado vieram os sonhos e com eles as lembranças e nas entrelinhas dessas passagens deturpadas, embaçadas, ignoradas e até agora apagadas, ela pôde absorver a essência daquilo que deveria esquecer. Enfim, lembrar podia machucar e ao mesmo tempo curava certas feridas que ela nunca conseguira fechar antes de recuperar suas memórias avulsas e terminantemente proibidas.

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